
Far Cry 2 foi entregue ao mais reputado estúdio da Ubisoft, em Montreal, que desenvolveu uma nova tecnologia do zero (a engine Dunia) e um ambiente totalmente diferente do original - África. O resultado é um jogo que não tem nada a ver com o primeiro título, e a ligação entre os dois se resume ao nome.
Antes de tudo, vale destacar que Far Cry 2 desde cedo foi considerado um dos FPS mais importantes do ano. As primeiras impressões assim o classificavam. Porém, a expectativa muito grande e se todos estavam à espera de um excelente jogo de ação na primeira pessoa, os resultados é apenas um bom jogo, com algumas idéias bem interessantes, mas com opções de design dúbias e completamente mal implementadas. Se de um lado tem diversos problemas técnicos e uma história inexistente, por outro é um dos jogos mais apelativos à comunidade e com um excelente suporte para multiplayer, incluindo o editor de mapas. Resumindo, Far Cry 2 é uma oportunidade perdida, um potencial desperdiçado estupidamente.
Alguns fãs de Far Cry ficaram inicialmente chocados com dois aspectos. Primeiro a mudança de cenário do paraíso tropical da Micronésia pelo ambiente das savanas africanas. Porém, desde cedo ficou claro que no meio do deserto também existem oásis! O segundo aspecto diz respeito ao protagonista - Jack Carver tirou umas merecidas férias e o protagonista nesta sequência é um mercenário sem carisma, sem uma identidade definida, já que o jogador pode escolher um entre nove personagens disponíveis, todos com uma breve biografia associada, idade e nacionalidade.
É bom deixar claro que a história em Far Cry 2 é praticamente inexistente. Aqueles que procuram uma narrativa interessante, personagens carismáticos e algo que prenda a atenção até o fim, esqueçam. O jogo se passa numa província fictícia na África Central, em meio a uma guerra civil. São duas facções rivais, ambas negociando interesses para com o povo, mas as duas demonstrando ganância pelo controle da região. Como era de se esperar, os diamantes movem o poder e essa será a moeda utilizada neste mundo hostil.
No meio do conflito surge o personagem do jogador, que tem como objetivo assassinar um homem conhecido como Jackal. Um mercenário sem escrúpulos, traficante de armas, que alimenta ambos os lados do conflito. Se esta missão poderia se tornar épica, o jogador irá se perder no território executando missões para ambas as facções, ajudar a igreja na fuga de civis inocentes ou aceitar trabalhos para eventuais companheiros e traficantes de armas em troca dos preciosos diamantes.
Os primeiros minutos de contato com o ambiente são fabulosos. O jogador começa a bordo de um táxi a caminho de Pala, a aldeia onde ambas as facções estão localizadas sob a lei de cessar fogo. Esta sequência, onde o jogador só pode interagir olhando ao redor, observando diversos NPCs interagirem com grande naturalidade com o motorista, conversando em dialeto africano, com diversas notas sobre a região ao redor e apontando pontos interessantes, antecipando um ambiente fantástico. A sua chegada é interrompida por uma má disposição, com o seu personagem infectado com o terrível vírus da malária.
Far Cry 2, ao contrário do primeiro título, é um sandbox de livre exploração. Num formato que mistura influências de GTA IV e Mercenaries 2. Basicamente o jogador tem total liberdade para explorar o mapa da região, aceitando as missões quando achar conveniente ou simplesmente passeando pelas belas paisagens. Um dos fatores mais importantes num sandbox é a possibilidade de participar em atividades secundárias, que abstraem o jogador da história principal, mas Far Cry 2 falha dos dois lados. A procura de malas com diamantes e gravações de conversas do Jackal espalhadas pelo cenário são as únicas coisas que incentivam a exploração, de resto, é só aceitar as missões principais, ou as secundárias, oferecidas por alguns companheiros ou entidades, tais como traficantes de armas e a igreja. Estas missões secundárias têm o propósito de dar acesso a mais diamantes, novas armas e o remédio para a malária.
O jogo é composto por dois enormes mapas, a região norte e sul, ligadas por uma área de deserto. Só quando avançar nas missões do modo "história" é que a segunda parte será desbloqueada. O jogador pode utilizar qualquer veículo disponível e explorar todos os cantos, já que a pé demora uma eternidade. Rapidamente se nota algumas falhas de design: o sistema de saves, confinado às safe houses que vão sendo desbloqueadas, e para isso deve-se eliminar a presença de inimigos, ou locais neutros como a igreja, comerciantes de armas ou no final das missões. Por isso, não se irrite de percorrer um vasto percurso, encontrando alguns diamantes, para depois, em seguida, ser interceptado por uma patrulha de inimigos e morrer, perdendo tudo desde o último save. Este aspecto é completamente inconcebível, elevando não só o nível de dificuldade, como de tempo perdido num jogo tão grande como este.
Outro aspecto diz respeito ao quick travel. Como em qualquer sandbox, muitas vezes queremos chegar rapidamente ao destino, recorrendo aos diversos meios de locomoção. Em Far Cry 2 esse aspecto é representado por uma carreira que leva o jogador aos quatro cantos e centro do mapa. Deveria haver mais pontos deste tipo, porque mesmo assim ainda é preciso fazer grandes caminhadas para chegar até um carro.
Far Cry 2 ambicionava retratar o ambiente africano, no entanto, existem falhas de elementos, como a inexistência de NPCs representando o povo, todas as aldeias e acampamentos estão minados de guerrilheiros, aliás, não existe um único NPC no jogo que não tenha uma arma pronta para atirar no jogador.
Fora isso, temos uma reprodução de uma região africana tipicamente pobre, onde os barracos são abundantes, o ferro-velho se acumula e os veículos pertencem a décadas atrás, exceto alguns jipes. Porém, todos os veículos estão equipados com GPS.
O ambiente em geral é muito bonito e consegue na maior parte das vezes criar uma sensação de imersão. Apesar de o jogador esta estar devidamente equipado com mapas e GPS, não será difícil se perder. As florestas são densas, o deserto é abrasador, mas peca pela falta de variedade de vida selvagem. Zebras e gazelas aqui e ali fogem quando avistam o personagem, mas elefantes, girafas e leões ficaram de fora.
Um dos melhores elementos deste jogo é sem dúvida o ciclo noite/dia em tempo real, assim como condições meteorológicas dinâmicas. Este fator influencia na visão dos inimigos durante os combates, mas ao mesmo tempo também afeta o jogador. Nas safe houses é possível dormir e acertar o despertador para a hora que quer acordar, conferindo algumas opções de abordagem estratégica às missões. Os efeitos do nascer do dia ou do pôr-do-sol são excelentes e se reconhece perfeitamente todos os momentos do dia.
Além das safe houses, estão espalhados pelo mapa diversos postos de controle das guerrilhas. Como é lógico, sempre que o jogador passa por estes postos na estrada será recebido de forma calorosa por uma saraivada de balas. Cada posto tem como finalidade guardar ora munições, medikits ou explosivos. Apesar de eliminarem os inimigos, passado um tempo as unidades serão repostas. No entanto, mesmo que passem por estes locais "correndo " num carro, os inimigos não têm problemas em lhe persegui nos seus jipes munidos de armas estacionárias, obrigando o jogador a tomar uma ação.
As missões aceitas ficam registradas no mapa e normalmente só pode ter uma de cada vez. Estas variam entre destruir alvos, eliminar personagens ou resgatar objetos. As missões principais têm sempre uma alternativa, oferecida pelos companheiros. E é nesse momento que entra o sistema de companheiros, um formato implementado meio às pressas com um resultado medíocre. Estes companheiros são no fundo os outros personagens que o jogador não escolheu no início. Além de darem missões paralelas, um breve sistema de reputação irá permitir que estes resgatem o jogador numa situação de perigo, quando morrer, o jogador é resgatado de última hora, com estes companheiros aparecendo do nada numa sequência de tiroteio interessante, mas repetitiva.
Perde-se aqui a oportunidade do jogador ser acompanhado por um parceiro e a possibilidade de introduzir um formato cooperativo com outros jogadores, que não existe. Por outro lado, sempre que o jogador executar uma missão da forma sugerida por um companheiro, o final acaba quase sempre por ter de salvá-lo igualmente de um confronto. É aqui que o jogo se torna verdadeiramente irritante, pois se o companheiro morre, este ficará definitivamente de fora da história, impossibilitando o acesso a outras possíveis missões. Este sistema de consequência não faria mal, caso a inteligência artificial dos companheiros não fosse tão medíocre, pois eles não conseguem se manter em pé mais de 10 segundos. O pior é que mesmo sendo possível curá-lo no fim, raramente conseguem sobreviver.
Tal como os seus parceiros, a inteligência artificial dos inimigos é também medíocre. Se por um lado observamos inimigos que ficam impávidos e serenos a olhando para o jogador, na maior parte das vezes conseguem localizá-lo e enchê-lo de bala. Os inimigos raramente procuram proteção e quando estão nos veículos são autênticos suicidas. Os confrontos são no geral muito fáceis, mas poderão ser frustrantes em muitas situações até o jogador detectar a fonte dos disparos.
Apesar da solidez da ação e uma excelente sensação de disparo das armas, há algo que retira o total realismo da ação, que é a quantidade de tiros necessária para abater um inimigo. Quando uma simples rajada na cabeça ou um tiro de metralhadora poderia colocar fim à oposição, eis que o jogador é levado muitas vezes a descarregar um cartucho num único inimigo. Excelentes estão as reações de alguns sobreviventes, que se arrastam e ainda assim sacam uma pistola e continuam atingindo o jogador.
Graficamente Far Cry 2 é o que se encontra mais próximo de Crysis no que diz respeito à física. É possível devastar a maior parte da vegetação, folha a folha, além desta reagir realisticamente à passagem dos personagens. O aspecto mais interessante diz respeito à propagação do fogo e não há dúvida de que se trata do mais real que já vimos. Uma explosão pode deflagrar fogo em cadeia, chegando mesmo a encurralar os inimigos em certas situações. Além disso, o efeito do fogo é excelente, aliás, as explosões tornam-se um dos aspectos mais divertidos de todo o jogo - são espalhafatosas, com um enorme raio de ação e realistas.
Claro que a física poderia ser bem melhor, apesar da grande interação com cenário e muitos objetos ficarem danificados. Mas olhando para Crysis, onde una granada é capaz de destruir uma barraca, em Far Cry 2 esse aspecto é mais limitado. No entanto, o efeito do vento na vegetação, toda a projeção das sombras, com os raios solares ofuscando a visão dão um toque a mais nos cenários.
Existe, claro, problemas incompreensíveis, muitos bugs, clipping, pop-ups de elementos do cenário, mas o pior são situações ridículas de carros voando e cadáveres flutuando. São pontuais, mas acontecem vezes suficientes para serem notados.
No que diz respeito ao som, as vozes dos personagens estão um pouco estranhas. O personagem principal é mudo, mas os NPCs com que interage têm tendência a responder rápido demais, como se estivessem lendo um texto rapidamente. Já o ambiente sonoro e musical é muito interessante, desde os sons da natureza, aos breves trechos musicais que passam por melodias tribais a músicas mais aceleradas durante a ação.
O editor de fases é um extra imprescindível neste título. Com uma simplicidade apreciável para produzir cenários e compartilhar pela comunidade, muitos já estão disponíveis para download. Um dos mapas mais divertidos da comunidade coloca o jogador combatendo numa gigantesca plataforma composta por blocos de gelo num ponto muito alto, que durante os combates vai se desfragmentando até os jogadores despencarem.
Quanto ao online propriamente dito, conte com os habituais modos de jogo: Deathmatch sozinho ou por equipes e Capture the Diamond (variação do CTF). O modo de jogoque merece destaque se chama Uprising e coloca o jogador no habitual formato de equipes que tentam capturar e defender pontos no mapa. A diferença é que cada equipe tem um capitão e esse será o único com o poder de captura. Desta forma, os confrontos desenrolam-se com os companheiros defendendo o seu capitão, enquanto eliminam o da equipe contrária, ganhando alguns segundos preciosos para continuar progredindo. Todos os modos e mapas permitem um máximo de 16 jogadores.
Vale destacar também o formato persistente das partidas online, desenvolvendo cada uma das seis classes disponíveis à escolha. A experiência ganha faz acumular níveis, permitindo o acesso a novas armas e melhorias das mesmas. Desta forma, os jogadores podem escolher os habituais especialistas em explosivos, uma classe mais furtiva ou franco-atiradores.
Far Cry 2 é um bom jogo, se o olhássemos apenas como um FPS. No entanto, transformá-lo num sandbox, sem qualquer vida neutra além de zebras e onde todos os NPCs estão ali para matar o jogador foi um erro. Desta forma temos de avaliá-lo globalmente, num equilíbrio de excelentes idéias e altos valores de produção, contra decisões de design medíocres e problemas técnicos imperdoáveis. A espera por este título estava alta e a Ubisoft perdeu uma excelente oportunidade de criar um jogo de ação num ambiente memorável.
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